Este texto foi pedido por uma professora de uma escola de ensino fundamental para que eu falasse sobre o teatro e o trabalho corporal com pré-adolescentes de 12, 13 anos.
O fazer teatral na vida
Depois de 25 anos trabalhando com teatro e em outras áreas das artes
cênicas, não posso mais fingir que o teatro não é vida pura, e sendo vida, está
intrinsecamente relacionado ao processo de auto-descoberta, autoconhecimento
e evolução do ser-humano. E o teatro assim sendo pura vida e
evolução, é também pura filosofia e por que não, poesia.
Tentarei falar sobre o processo teatral de maneira prática e ao mesmo tempo
filosófica, já que não conseguirei separar teatro e filosofia em duas partes
distintas.
A criança de 12, 13 anos, inicia um ciclo de saída do "casulo familiar", onde até
então ela acreditava ser uma só com sua família, amada e protegida. Agora
ela se experimenta pela primeira vez como uma individualidade. Inicia-se um
processo de aumento de consciência de si mesma.
Muitas vezes alguns padrões emocionais começam a ser construídos nessa
fase, como a timidez, ou auto-afirmação exagerada, devido à insegurança de
estar nesse novo mundo que se apresenta à ela.
Uns começam a se fechar dentro deles como uma forma de proteção,
buscando elementos afetivos já conhecidos e outros, pelo contrário, saem
demais, se relacionando com excesso de energia, numa tentativa de vencer o
medo desse universo que até então começou a se mostrar de certa forma
ameaçador.
Junto aos desafios emocionais que se apresentam, o corpo está crescendo, se
transformando. Mudanças internas e externas intensas.
Os padrões emocionais que vão aos poucos sendo construídos nessa fase,
começam a se manifestar corporalmente. A criança que cresce rápido começa
a se curvar para não demonstrar seu tamanho. A que começa a se fechar
dentro de si com insegurança, começa a adquirir ombros de medo "
assOMBROS" . Ombros "assombrados", fechados pra dentro.
Aqueles que ao contrário de se fecharem dentro de si, querem enfrentar o
mundo se auto-afirmando, vão enrijecendo a região torácica, desenvolvendo
uma sobressaliência das costelas e fechamento das escápulas, tensões na
coluna cervical e etc.
Diante da insegurança da vida nessa fase, as crianças vão recorrer ao que já
está dentro delas e o que já é mais conhecido - seus pais e antepassados.
Perderam a ligação até então tão segura e simbiótica com eles, mas os busca
dentro delas. É aí que elas começam a adquirir mais claramente os padrões de
personalidade de seus pais. Começam a buscar dentro delas maneiras
conhecidas de atuação e relacionamento nesse mundo.
Todos esses padrões emocionais e corporais criados nessa fase, vão
desenvolvendo padrões de comportamentos; preconceitos, julgamentos,
excesso de crítica ao outro e/ou a si mesmo e várias condutas equivocadas da
personalidade. E assim vai sendo construído o adulto que essa criança será no
futuro.
Diante de tudo isso, que é um processo natural do desenvolvimento do ser
humano, como podemos, nós adultos ajudar essas crianças a serem mais
livres e aos poucos, mais conscientes da realidade que elas mesmas estão
criando para suas vidas?
Como nós adultos podemos, de uma maneira consciente ajudar essas crianças
a lidarem melhor com suas dificuldades e serem mais amorosas com elas
mesmas e com os outros?
Primeiro de tudo é nos conhecendo melhor. Reconhecendo em nós mesmos
todos esses padrões de comportamento, tanto emocional como corporal que
construímos em nós. Com o nosso aumento de consciência, modificamos
nossas estruturas mais profundas, curamos, purificamos, refazemos sinapses,
modificamos nosso DNA - os mesmos que nossos filhos herdaram de nós. E se
modificamos as informações contidas no nosso DNA, os de nossos filhos,
consequentemente também serão transformados.
Nos trabalharmos terapeuticamente com o intuito de nos transformarmos e
aumentar o conhecimento de nós mesmos, expandindo a nossa consciência é
um ato de pura generosidade, pois quando nos transformamos, quando
passamos a nos conhecer melhor, quando evoluímos, levamos junto todos que
estão de alguma forma ligados a nós. Muitas filosofias orientais acreditam
nisso há milênios de anos. A cura de gerações futuras e mesmo a de nossos
antepassados através da nossa própria. E nem se falava em DNA.
E o que o teatro tem a ver com isso tudo?
As atividades teatrais têm a capacidade de trazer a criança para um lugar
dentro dela onde não exista julgamentos, de certo ou errado, feio ou bonito.
Nas atividades e jogos teatrais ela simplesmente É. E Sendo ela conquista um
estado de presença plena, isto é, um estado de atenção, mas ao mesmo tempo
relaxado.
Neste estado de atenção relaxada ela acaba abrindo um canal de
relacionamento com ela mesma e com os outros de forma mais saudável.
Acredito que fazer teatro é muito mais do que decorar um texto, vestir um
figurino e subir ao palco para apresentar a peça e no final ouvir os aplausos da
platéia. Isso é só a "casquinha", é só a imagem que aparece, é a forma que
contém uma essência muito maior que transcende todas as formas e imagens
que conhecemos.
O trabalho teatral
Trabalho com três linguagens que se complementam: Teatro,
dança/movimento e a linguagem do palhaço.
O fazer teatral nos traz uma maneira de entrar em contato com a gente
mesmo através de algo aparentemente muito conhecido e divertido: o jogo
com o outro.
Jogar com o outro é aprender a estar aberto e receptivo ao que o outro traz
para a gente.
É saber aproveitar o que o outro nos trouxe e jogar misturando com o que a
gente propõe.Transformar o que o outro traz de maneira criativa - isso é,
através do que é meu, sem desrespeitar o que é do outro.
É jogar junto em harmonia.
Isso nos ensina a nos relacionarmos harmonicamente tanto com pessoas como
com situações que nos aparece e que nos pede para sermos criativos.
Nas aulas de teatro, alguns dos jogos propostos são feitos para duas, três ou
bem mais pessoas jogarem. Quem não está participando do jogo, está
assistindo. Nesse assistir muito se trabalha nesse sentido. Podemos exercitar
nosso poder de observação, respeito e humildade com relação ao que os
outros têm a nos ensinar.
Aprendemos com o outro o tempo todo, como verdadeiros espelhos. Através
deles podemos ver o que sem eles não veríamos em nós mesmos. E nesse
observar o outro jogando, percebemos que as dificuldades que o outro tem eu
também posso ter. Assim, observando as dificuldades que podemos ter,
podemos também aprender as resoluções através da observação do outro.
Aprendemos a observar as semelhanças, mesmo através das diferenças.
Aprendemos vivenciando que todos somos seres humanos. Estamos juntos no
mesmo planeta. Vivemos todos numa rede de relações.Temos os mesmos
sentimentos, que é expressado diferentemente dependendo da cultura, idade,
realidades sociais, fases da vida, personalidade, etc. Mas todos somos
habitantes do mesmo planeta. Estamos juntos na teia da vida.
Dança/Movimento
Foi-se o tempo, graças a deus, em que o teatro era falar textos e textos e o
corpo desconectado da mente. Como também, graças a evolução do Homem,
aprendemos que a conexão entre corpo e mente é algo essencial a todos nós.
E aprender a estar em estado de conexão entre corpo e mente (Sentir, pensar
e Querer) é algo a ser conquistado cada vez mais e é o que define a nossa
evolução enquanto seres humanos.
Diante disso não cabe mais um trabalho teatral sem um trabalho corporal.
A criança é um ser integral com corpo, mente e espírito. Tudo precisa caminhar
junto. Esse é o aprendizado.
Na dança/movimento, a criança se coloca em contato com seu corpo.
Através dos exercícios propostos ela vai desenvolvendo uma maior liberdade e
autonomia com relação a seu corpo.
Trabalhamos rolamentos, movimentação nos diferentes níveis espaciais e a
observação do movimento a fim de trazer um maior conhecimento de seu
próprio corpo, aumentando seu repertório de movimentos, experimentando
seu corpo de diferentes maneiras, através de suas infinitas possibilidades.
A criança através dos jogos e dinâmicas de movimentos vai aos poucos
resgatando a liberdade que com a idade de 12 a 13 anos já começa a ser
perdida, a fim de criar um corpo próprio livre e não preso a tensões emocionais
que a fase proporciona, como já foi dito mais detalhadamente acima.
A Linguagem do Palhaço
O palhaço nos ensina a estar presente no aqui e no agora, se relacionar seja
com quem e o que for na pureza e na verdade.
O palhaço não representa, ele é.
A troca, o deixar vir, o brincar, a disponibilidade e a abertura para o novo,
como uma criança que é chamada e vai sem saber para onde. Assim é o
palhaço: a pessoa brincando no aqui e no agora, no presente. O ser perdido
em um mundo lógico. Não é a mente que comanda, é a intuição, a abertura
para o relacionamento com tudo o que o mundo possa nos proporcionar. É a
pureza no seu sentido real. É a essência que se manifesta. Isso é o palhaço.
Como uma criança pequena que todos se derretem na sua frente; ela não
possui defesas, resistências. Ela mostra o que ela é. Ela mostra sua essência
através de seu olhar, de seu relacionamento com o mundo, com sua entrega.
Ela se mostra totalmente permeável, aberta e com isso conquista todo mundo
Abaixo uma parte do livro de Claudio Thebas, um grande palhaço:
"Se observarmos as crianças pequenas podemos perceber que elas possuem
todas as qualidades que um bom palhaço deve ter: são espontâneas, sinceras,
atrapalhadas e, com tudo isso acabam sendo muito engraçadas.Elas não
possuem um medo que nós adultos temos, que é o medo do ridículo, porque
elas não têm idéia do que seja isso. Enfim, todos nós nascemos palhaços e
com o tempo vamos perdendo essas qualidades tão essenciais à natureza
humana, porque infelizmente com o passar do tempo, de tanto ouvir “que
feio”, “ isso tá errado”,“você é isso” , você é aquilo” o palhaço que nasceu com
cada um de nós começa a sentir medo, vergonha e decide se esconder até
sumir pra um lugar dentro da gente.”
("O Livro do Palhaço" - Cláudio Thebas - Cia. das Letrinhas)
Esse trecho resume o trabalho do palhaço.
Que é feito também através de jogos, um pouco mais desafiantes, porque para
cada um é proposto estar em um lugar onde pouquíssimas vezes estamos no
nosso dia a dia, na relação com o outro.
Lugar esse, de sinceridade, fragilidade e pureza no sentido de nossa mente
não estar preenchida de pensamentos pré-concebidos ou julgamentos, mas de
estar num estado de presença pura. É uma conquista a ser feita, que o palhaço
nos ajuda.
Trabalhar o palhaço dentro das aulas de teatro, nos ajuda a entender estar no
palco, não egóicamente, mas a entender que palco é um lugar de
compartilhamento e transformação.
No palco, através da minha exposição, eu posso estar só a "casquinha",
vivendo o medo de me mostrar de verdade. Como podemos nos relacionar com
o outro e com a vida também só com a " casquinha". Ou podemos ser
verdadeiros com o outro, inteiros, plenos, como também podemos ser assim,
verdadeiros no palco.
Aprendemos que isso é ser generoso, amoroso, pois compartilhamos o brilho
da nossa luz com o outro e só brilhamos, de verdade quando acessamos esse
lugar da verdade dentro da gente. Um lugar onde não queremos mostrar para
o outro, mas sim Ser junto com o outro. E essa é a maior conquista que pode
se vivênciar nas aulas de teatro.
Luciana Cah